Quando o Estado decide pelo seu filho: o Senado disse não

Uma resolução federal permitia que crianças fossem atendidas em situações extremas sem o conhecimento dos pais. O Congresso a derrubou. Entenda o que estava em jogo e o que esse voto revela sobre o Brasil que estamos construindo.

03/06/2026 às 11h03 Atualizada em 03/06/2026 às 19h13
Por: Redação
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Foto: Reprodução/Secom Ceará
Foto: Reprodução/Secom Ceará

Quando o Estado decide pelo seu filho: o Senado disse não

Uma resolução federal permitia que crianças fossem atendidas em situações extremas sem o conhecimento dos pais. O Congresso a derrubou. Entenda o que estava em jogo e o que esse voto revela sobre o Brasil que estamos construindo.


O título não é retórico. A pergunta é real, e por alguns meses ela teve uma resposta concreta na legislação brasileira: sim, em determinadas circunstâncias, o Estado podia tomar decisões sobre o atendimento do seu filho menor de idade sem avisar você.

O Senado Federal mudou isso.

Na semana passada, o Congresso aprovou a sustação de uma resolução do Conanda, o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente, que padronizava o atendimento de menores vítimas de violência sexual na rede pública. O ponto mais polêmico da norma era exatamente esse: prever situações em que o atendimento ocorreria sem comunicação imediata aos pais ou responsáveis legais.

Para muitos parlamentares, líderes religiosos e especialistas em direito de família, isso foi longe demais.


O que a norma dizia, sem rodeios

É importante ser preciso aqui, porque o debate público sobre esse tema costuma misturar questões distintas.

A resolução do Conanda não criava nenhum novo direito ao aborto no Brasil. A interrupção da gravidez nos casos previstos em lei, como estupro e risco de vida para a gestante, já existia antes dessa norma e continua existindo após sua derrubada. Isso não mudou.

O que a resolução fazia era estabelecer um fluxo padronizado de atendimento para crianças e adolescentes vítimas de violência sexual nos serviços públicos de saúde. E dentro desse fluxo, havia uma previsão específica: em determinados casos, o atendimento poderia acontecer sem que os pais ou responsáveis fossem comunicados de imediato.

Esse ponto foi o estopim.


Por que isso divide, e por que a divisão é legítima

Os defensores da norma tinham um argumento real: em muitos casos de abuso sexual contra menores, o agressor é alguém do próprio convívio familiar. Notificar a família poderia, nessas situações, colocar a vítima em risco adicional ou expô-la ao próprio abusador.

É um argumento que precisa ser levado a sério. Nenhum cristão comprometido com a dignidade humana pode ignorar a realidade de crianças que vivem dentro do próprio perigo.

Mas os críticos da norma levantaram uma questão igualmente legítima: ao transformar essa exceção em protocolo padrão, a resolução não protegia melhor as vítimas. Ela simplesmente retirava dos pais, de forma sistemática, o direito de acompanhar decisões de consequências permanentes sobre seus filhos.

E há uma diferença fundamental entre essas duas coisas.


O que a tradição cristã tem a dizer sobre isso

A visão judaico-cristã sobre família não é uma preferência cultural. É uma convicção teológica com implicações práticas: a família é a instituição primária de proteção, formação e cuidado do ser humano. Não foi o Estado que a inventou, e não é ao Estado que cabe substituí-la por padrão.

Isso não significa que a família seja perfeita, nem que esteja sempre em condições de proteger. A Bíblia é honesta sobre a capacidade humana de falhar, inclusive dentro do lar. Mas reconhecer a falha pontual é diferente de construir um sistema que trate a família como obstáculo, e não como parceira, na proteção de uma criança.

Quando uma norma administrativa pressupõe que notificar os pais é, por padrão, um risco a ser gerenciado, ela inverte uma lógica que pastores, líderes e famílias cristãs têm razão em questionar.


O que muda na prática após a derrubada

Com a sustação da resolução, os protocolos de atendimento voltam às diretrizes anteriores. O Ministério da Saúde e os gestores estaduais precisarão revisar seus procedimentos internos para adequação.

O que não muda: o aborto legal continua permitido nos casos já previstos pelo Código Penal. Nenhum direito foi eliminado pelo voto do Senado. O que foi revertido foi uma normatização administrativa que o Congresso considerou excessiva em seus limites ao papel da família.

Na prática, isso significa que cada caso voltará a exigir análise individualizada, com maior espaço para o envolvimento dos responsáveis legais sempre que isso não representar risco à vítima.


A pergunta que fica, e que precisa de resposta

A decisão do Senado é um ponto de chegada político, mas não encerra o debate. Ela devolve ao centro da discussão a pergunta que realmente importa: como garantir proteção integral a crianças vítimas de violência sem criar protocolos que operem sistematicamente à margem da família?

Essa pergunta exige mais do que um voto. Exige que igrejas, líderes, parlamentares e organizações cristãs comprometidas com a infância saiam da posição reativa e construam propostas concretas. Não basta dizer o que não deve ser feito. É necessário mostrar o que deve.

O Senado disse não a uma norma. Agora, cabe à sociedade, e especialmente às comunidades de fé, dizer sim a algo melhor.


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